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Crônica – Sobre a nosso costume de pagar pra ver no amor

”Fico pensando em qual momento da vida decidi embarcar numa furada decretada, onde antes de subir já me avisaram que o barco iria naufragar.”

De vez em quando, eu me pergunto por que entrei em certas relações. Não vou chamar esses lampejos rápidos de relacionamentos, vejo uma clara diferença entre as duas palavras – mas pode ser coisa da minha cabeça, então sinta-se à vontade para usar a palavra que preferir.

Fico pensando em qual momento da vida decidi embarcar numa furada decretada, onde antes de subir já me avisaram que o barco iria naufragar. Eu, mesmo assim, quis pagar pra ver. Noutras vezes, todos os sinais gritavam na minha cara que eu sairia da situação com um baita ferimento na pele e com o coração destroçado, ainda assim quis pagar pra ver. Em algumas, eu já sabia que não gostava da pessoa, que não me envolveria com ela, que não tinha afeto nenhum para dispor naquele espaço entre nós dois, mas ainda assim eu insistia nos encontros, nos jantares, nos esforços de agenda prum cinema no meio do cinema. Quis sempre pagar pra ver.

E o resultado? Tive paixões – não dá pra gente chamar de amor aqui -, todas elas meio merda. Paixonites que acabavam com o meu emocional em três semanas ou passavam em branco a ponto de eu não me lembrar exatamente o nome do outro quando perguntavam. Relações essas que poderiam ter sido evitadas e, junto delas, um mar de confusões, ressentimentos e tempo gasto em nada poderia ter sido salvo.

Acho que é comum essa coisa de entrar em coisas que sabemos que vão dar em nada. Mas a possibilidade de dar em algo nos faz apostar no lado bom da coisa, afinal de contas, vai que dá certo. 50/50, não é? Pra quê? Ou melhor, pra quem? Será que nós somos realmente otimistas a ponto de achar que qualquer pessoa que dobre a esquina pode ser a nossa história de amor inesperada, a pesso por quem nós esperamos a vida inteira? Ou será que é um tipo de capricho nosso, uma espécie de Premonição da vida real, em que a gente ousa desafiar o destino e mostrar para ele que podemos mudar o curso supostamente natural da coisa. Bem, vocês já viram o final de algum desses filmes da franquia de Premonição? Então vocês sabem como essas relações terminam.

Gente que não se dispõe a ter tempo pra você, gente que tá nem aí pra você, gente que te escolheu como o passatempo da vez. Mas você paga pra ver.

Gente que não te desperta nada, gente que te irrita com posicionamentos mesquinhos e atitudes reprováveis, gente que você dispensa porque prefere dormir sozinho. Mas você paga pra ver.

Gente que te troca pelo ex num piscar de olhos, gente que te diz que é assim ou assado e que não vai mudar por você, gente que te deixa dormindo sozinho enquanto sai pra atender uma ligação e não volta mais. Mas você paga pra ver.

Pagar pra ver não é de todo mal, veja bem. É uma aposta. O problema é quando tudo vira aposta, até as relações que são decretadamente azarões. Apostamos tanto que nos desgastamos a níveis máximos, cansados de pular de mesa em mesa, mas sempre procurando um novo caça-níquel que nos permita prolongar o vício das jogadas.

Uma vez me disseram que o maior problema dos cassinos não são as máquinas viciadas nem o péssimo atendimento, muitos menos o valor alto das bebidas. O problema dos cassinos são os jogadores viciados, que deixam a vida passar lá fora enquanto perdem seus dias fazendo apostas altas. Perdem dinheiro, perdem saúde, perdem outras opções de entretenimento e felicidade pessoal que poderiam ser melhores. Mas eles não percebem isso e continuam apostando. Mas a gente não percebe isso, e paga – mais uma vez – pra ver.

 

 

Daniel BovolentoPor Daniel Bovolento, publicitário carioca que reside em São Paulo. Meio bossa nova e rock n'roll. Editor e consultor para projetos de conteúdo, além de jornalista de comportamento e um monte de outras coisas em seu blog ETC