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Crônica – Sinceridade custa muito

”O lema que eu levo para a minha vida é o de não fazer esforço nenhum quando não quero levar adiante. Melhor deixar a situação às claras logo no início para evitar que o outro se fira do lado de lá.”

Depois de um dia inteiro de trabalho e quatro reuniões durante a tarde, eu chego em casa com a vontade única de tirar os sapatos, esticar os pés em cima do sofá e permanecer. Só permanecer. Sem muito saco para aquilo o que não me leva para frente.

Com a idade fica cada vez mais fácil admitir que não precisamos daquilo o que não nos acrescenta em nada. A vida não é a mesma de cinco anos atrás e eu sei que viver é um pouco menos bonito e um pouco menos dolorido do jeito que tem sido. Mas com o peso nas contas paramos de enxergar como conto de fadas o que não passa de fardo na frente dos olhos.

Nossa geração, por exemplo, perde semanas atrás de semanas atrás do contatinho perfeito enquanto sabe que não existe nada para ser construído ali. Troca mensagens de hora em hora durante dois dias seguidos, para nunca mais dar as caras depois. Como se o outro tivesse prazo de validade e não valesse mais depois de conseguirmos aquilo o que queremos.

O tal do ego inflado.

Talvez eu esteja ficando velho. Não tenho mais saco para pegar o celular nas mãos e trocar mensagens com quem não desperta o meu interesse. Pode ser um pouco de egoísmo, sim, mas Deus me livre ficar alimentando as expectativas de quem nunca vai sentir o peso do meu toque. Longe de mim essa sedução chata que alimenta o interesse e fere o outro quando não sabemos o que queremos.

Quando me pedem um conselho, sugiro sinceridade. Se você não tem um interesse concreto em quem está dividindo alguns minutos do dia com você, por que motivo você precisar dar um apelido carinhoso qualquer? Se você está nem aí para o que o outro sente, por que raios perguntar como o coração tem batido do lado de lá?

Fantasmas só fazem mal para a gente quando estão por perto.

Quando estão longe, não os percebemos.

Se for para ser presença, que seja com uma cor bem viva e com opacidade no máximo.

O lema que eu levo para a minha vida é o de não fazer esforço nenhum quando não quero levar adiante. Melhor deixar a situação às claras logo no início para evitar que o outro se fira do lado de lá. Perco alguns encontros de acaso, sim, mas isso deixa de fazer sentido depois de um tempo.

O que eu quero mesmo depois de um dia inteiro de trabalho é deitar a cabeça no sofá com a consciência limpa. Sem carregar o peso de saber que estou alimentando as expectativas de alguém que nunca vai me ter.

 

Por Júlio Hermann, escritor e jornalista, vê a vida passar da mesa do bar enquanto conta histórias de amor. Vive no turbilhão, entre o silêncio que ecoa e a multidão que berra e não se escuta. Escreve mais sobre si e seus amores em www.juliohermann.com.