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Crônica – O tal abuso emocional chega de mansinho e a gente nem vê

”Enquanto isso, vou tratar de ver o lado bom de tudo: escrever textos bonitos e tristes enquanto colo os pedaços de coração que restaram, realimentar e fortalecer meu amor próprio…”

Hoje fugi de mim: deixei o coração de lado e finalmente ouvi a voz da razão, que há tanto me apurrinhava nas noites de sofrimento e choro em silêncio. A pior parte é que,  quando analisando a sangue frio, você nunca me fez promessas. Nunca disse que me queria pra você com todas a letras. Na verdade, você nunca disse nada com clareza e é triste admitir que eu me apeguei ao blurry do nosso pseudo-relacionamento pra preencher as lacunas cinzas com as cores mais brilhantes que minha imaginação era capaz de pintar.

Fui eu quem propositalmente ignorei todos os sinais de alerta que a razão tentou enviar pro coração, justificando comportamentos no mínimo duvidosos com amor, como se amor naturalmente machucasse assim, todos os dias. Minha culpa ter esquecido que orgulho de estar ao lado e amor próprio devem caminhar de mãos dadas com o sentimento (mútuo, recíproco, assumido, escancarado); e não serem esmagados diariamente por ele.

Eu, apressada, quis demonstrar tudo que tinha de amor acumulado em quase 30 anos de vida e, numa tentativa desesperada de te dar segurança, doei minha vida por completo (com direito à família e amigos mais próximos). Eu só esqueci de perceber que mesmo muito tempo depois, nada disso foi recíproco. Fui eu quem pintei beleza na dor e fiz delícia o ser feliz escondido, proibido, impublicável – confesso, funcionou por um bom tempo. Mas hoje, me sobra tanta falta que já não justifica eu ser só um pedaço manco de amor oculto: eu preciso de mais. Eu preciso acreditar que mereço mais.

Infelizmente, vivi na pele o que sempre juguei tão simples de ser notado (ledo engano): é que o tal abuso emocional chega de mansinho e a gente nem vê. No fundo, enganamo-nos com a sensação de achar que sabemos onde estamos entrando e que temos o controle da situação ou capacidade de sair dela a qualquer momento. Mas essa é a maior mentira de todas, porque no fundo, é natural do ser humano florear as coisas principalmente quando elas não vão bem, numa tentativa desesperada de fazer as coisas “darem certo”, vestindo de banquete cada migalha que lhe sobra quando se quer muito algo/alguém, aceitando gradativamente situações absurdas como omissões, mentiras e traições usando o amor como perdão.

Mas chega uma hora que a verdade vem à tona. Que a gente acorda pra vida e abre os olhos pra enxergar que se dói tanto; se é tão difícil, não é amor. No meu caso, isso aconteceu enquanto assisti meu girassol morrer, mesmo tendo dedicado tanto amor e cuidado à ele: é que as coisas mais lindas da vida tomam esforço de dois lados, e não importa o quanto uma parte se dedique em fazer dar certo, apenas um lado nunca será suficiente.

Sabe, chega e ser humilhante admitir que me deixei enganar. Que me deixei levar. Que aceitei em silêncio quase tudo que sempre abominei numa ideia de relacionamento. Mas quem sabe isso sirva para abrir outros olhos além dos meus. Quem sabe ajude eu mesma a lembrar e fortalecer o que eu sempre amei em mim: as ideias e os ideais. Quem sabe expor gere consciência, empatia. Quem sabe gritar (me) cure.

É que eu vivi tanto tempo em silêncio que me permiti sufocar a inspiração eloquente que habitava meu coração, abrindo a porta para uma nuvem negra chamada depressão e culpa, que até hoje acreditava – pasme- merecer sentir. Mas a dor tem sua beleza, e que ela me sirva de apoio de hoje em diante.

Por favor, eu te peço que vá embora. Apague a luz, feche a porta e leve contigo meu perdão e todo o amor que dei (não, não me arrependo disso): que você saiba lidar com o que fez com ele (desculpe, não posso continuar me culpando por algo que não estava ao meu alcance). Não lhe desejo mal, mas não te quero por perto. É que percebi, embora um pouco tarde, que preciso cuidar mais de mim.

Enquanto isso, vou tratar de ver o lado bom de tudo: escrever textos bonitos e tristes enquanto colo os pedaços de coração que restaram, realimentar e fortalecer meu amor próprio e tentar convencer-me que valho à pena a qualquer hora – que nunca existiu essa de bad timing. Quem sabe assim um dia eu acredite por fim que ainda há, por aí, um par de green eyes à minha espera.

 

 

Por Amanda Amerlin, bocuda, nerd, tatuada. Cervejeira de carteirinha e mãe de bulldogs. Além do sorriso no rosto, mantém paixão absoluta por bacon e sexo.