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Crônica – Eu não preciso de alguém pra chamar de meu

”Perguntam se eu dependo de alguém pra ser feliz, respondo que sim. Dependo de uma infinidade gigante de pessoas. Você também depende delas.”

Uma das certezas que eu tenho na vida e grito por aí é a de que não conseguimos viver sozinhos. Alguns não entendem meu ponto, outros bradam solteirice como se eu tratasse o estado civil como crime inafiançável. A maioria das pessoas carrega essa dependência com a ideia de que ela diz respeito a um amor romântico que não precisa necessariamente entrar no balanço. Você não precisa de um par para ser feliz.

Quando eu digo que dependemos de pessoas para existirmos, trato única e exclusivamente de nossas satisfações pessoais, dos sonhos por realizar, de algum amigo para dividir a conta na balada, alguém para correr no parque ou que trate de deixar a nossa rotina um pouco mais fácil para que possamos viver a solteirice ou o amor que quisermos. Não somos autossuficientes, sempre precisaremos de alguma ponte para chegar do outro lado do rio.

Essa visão fechada que nós temos de que viver sozinhos é o mesmo que não ter alguém pra dividir o travesseiro é traiçoeira demais com nós mesmos. Nunca estamos sozinhos. Eu, por exemplo, me apaixonei duas ou três vezes na vida e nunca vi nenhuma das histórias serem construídas até parecem concretas na frente dos olhos. Nunca tive nenhum desses relacionamentos que a gente enxerga por aí, tampouco vivi sozinho até aqui. Não me sinto solitário, me sinto meu. E de todas as pessoas que merecem um pouco de carinho meu.

Uma das grandes provas da dependência que temos é dada por Supertramp em Na Natureza Selvagem. A gente pode até tentar, correr atrás, ser o mais autossuficientes possível, mas não depende só da gente. Além disso, imagina quantas histórias incríveis deixaríamos de viver se optássemos por uma solidão que não foi feita para fazer parte da vida da gente?

Perguntam se eu dependo de alguém pra ser feliz, respondo que sim. Dependo de uma infinidade gigante de pessoas. Você também depende delas. Depende para cada uma das pequenas coisas que fazem parte do dia a dia. O que nós temos que fazer é parar de confundir relacionamentos amorosos com todas as coisas em nossas vidas.

Não é porque você não tem um amor pra chamar de seu que você vive em solidão.

 

Júlio Hermann é escritor e jornalista, vê a vida passar da mesa do bar enquanto conta histórias de amor. Vive no turbilhão, entre o silêncio que ecoa e a multidão que berra e não se escuta. Escreve mais sobre si e seus amores em www.juliohermann.com.