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Cansado de ouvir sobre machismo e racismo? Imagine quem vive isso

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Não querer discutir temas tão importantes é sintomático de uma sociedade imatura para o debate sério.

Quem é feminista ou milita na luta antirracista ou no movimento LGBT, com certeza já ouviu de alguém a frase: “Ah, mas vocês só falam disso” ̵ seja para expressar cansaço ou destilar ódio.

Essas pessoas, obviamente, ignoram que machismo e racismo são elementos estruturantes dessa sociedade, logo nenhum espaço estará isento dessas opressões. Basta vermos as desigualdades salariais entre homens e mulheres ̵ se falarmos de mulheres negras, a distância é maior ainda ̵ ou o número de jovens negros assassinados pelo Estado.

Para nós, falar desses temas é questão de sobrevivência, é denunciar a dura e desigual realidade. Pedir para pararmos de falar disso, seguindo a síndrome Morgan Freeman de ser, é querer manter as coisas como estão. Freeman, em uma entrevista, disse que o dia em que pararmos de falar de racismo, ele deixará de existir, como se racismo fosse uma entidade.

Fazendo uma analogia simplista, e um “argumento” simplista como esse requer uma analogia assim, se uma pessoa está com câncer e deixa de falar nisso e procurar tratamento, a doença simplesmente vai desaparecer? Não querer discutir temas tão importantes é sintomático de uma sociedade imatura para o debate sério. Há uma frase que circula nas redes sociais que explica bem: “Se você está cansado de ouvir falar sobre racismo, imagine quem vive isso todos os dias”.

Fora isso, há os intelectuais e especialistas que adoram dizer serem pessoas que falam de tudo, arvoram-se por falar de tudo. Esses também se referem a nós como pessoas que “só sabem falar disso”. Nesses casos, eu julgo ser pior, porque essas pessoas têm acesso a um debate mais crítico, mas preferem se esconder por de trás de seus privilégios.

Criam categorias como literatura feminina, assuntos para mulheres. A literatura produzida por eles é tida como universal e a feita por mulheres, “literatura feminina”. Alguém já ouviu alguém falar em literatura masculina? Criam sub categorias para hierarquizar arte e conhecimento. Julgam que falam do universal enquanto nós só falamos do específico, do “nosso mundo”, quando é justamente o contrário.

Ao falarmos de nós, estamos denunciando o quanto essa categoria universal é falsa, pois tem como base o homem, o branco. Apontar isso, é justamente ampliar essa categoria de universalidade, fazê-la abranger um número maior de possibilidades de existência.

Se racismo e machismo são elementos fundantes dessa sociedade, as hierarquizações de humanidade serão reproduzidas em todos os espaços. Deste modo, a ciência já foi utilizada para legitimar racismo através dos estudos de evolução biológica do século 19 que introduziu o conceito de “racismo biológico”, assim como também para querer provar uma “inferioridade natural” da mulher.

Como disse Bourdieu: “A ciência neutra é uma ficção. Uma ficção interessada”. Há o interesse de quem possui os privilégios sociais de criar mecanismos de manutenção desses privilégios, seja pela ciência, pela arte ou pela educação. Lélia Gonzalez, intelectual e feminista negra aborda essa questão em suas obras.

Criticando a ciência moderna como padrão exclusivo para a produção do conhecimento, vê a hierarquização de saberes como produto da classificação racial da população, uma vez que o modelo valorizado e universal é branco.

Nada é isento de ideologia. Como acadêmica e militante, ouço por parte de alguns acadêmicos que sou ideológica por estudar feminismo, como se eles também não tivessem seguindo uma ideologia, inclusive a de decidir quais temas são legítimos ou não e a de nos manter fora desses espaços. Nosso “stand point”, ponto de partida, como define Patricia Hill Collins, ou o nosso “só falar disso” nos permite refutar esse modelo e pensar outros mais plurais e democráticos. Não é possível falar de política, sociedade, arte, sem falar de racismo e sexismo.

Falar de questões que foram historicamente tidas como inferiores, falar de mulher, população negra, LGBT é romper com a ilusão de universalidade que exclui. A concepção de universal de quem está no poder é um dado ilusório. Não nos enganemos quando eles dizem que falam de temas universais e nós não. Eles estão tão somente falando de si próprios.

 

 

Por Djamila Ribeiro em Carta Capital

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Por que é tão difícil deixar de ser o velho você

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Na sua atual realidade…

– Você tem pensamentos recorrentes,

– Que motivam sempre as mesmas escolhas,

– Que provocam sempre as mesmas reações,

– Que levam às mesmas ações e comportamentos

– Que acabam levando às mesmas experiências

– Que fazem com que você se sinta sempre da mesma velha formas…

E este é o seu estado de sempre… Você tá numa corrida de ratos, um replay constante das mesmas conexões cerebrais, dos mesmos padrões de comportamento. Você não consegue manter as suas decisões, você não tem consistência nas suas escolhas, você não tem clareza suficiente. As suas sinapses estão acostumadas a se conectar sempre das mesmas exatas formas. É por isso que mesmo querendo sair daí, mesmo querendo mudar, você não consegue.

E antes que você fique aí se sentindo um perdedor, uma pessoa que “deu errado”, vou te explicar cientificamente por que isso acontece! Por que é tão difícil mudar e deixar de ser o velho você?

Vou te apresentar uma lei da neurociência, que se chama lei de Hebb. Ela diz que:

“A intensidade de uma ligação sináptica entre dois neurônios aumenta se ambos são excitados simultaneamente”.

Tá, você não entendeu nada. Calma que eu vou explicar! Essa lei quer dizer que os neurônios que se ativam juntos tendem a permanecer juntos, a ligação entre eles é mais forte. E sempre que um deles é ativado, ele acaba reativando toda aquela rede que estava acostumada a se ligar com ele. É por isso que um drogado pode ficar anoooos sem usar droga, mas se um dia voltar para o contexto onde usava ou algo em sua nova vida ativar um neurônio desses… toda aquela rota de células se reativa novamente… e ele vai sentir uma vontade louca de usar droga, porque este era o comportamento padrão associado a esta ligação sináptica. É por isso também que, às vezes, a gente parece super bem resolvido com os pais e então passa um final de semana na casa onde vivia na infância e as brigas ferozes começam novamente. O ambiente, ou um tipo de conversa dispara todas aquelas velhas conexões cerebrais, muito bem arraigadas, um caminho muito percorrido por muitas vezes. E todas as velhas reações e comportamentos voltam, assim como os pensamentos antigos.

Por que o cérebro faz isso? É simplesmente um mecanismo para economizar energia! O cérebro prefere usar conexões já feitas do que formar novas. É sempre isso que ele vai fazer quando tiver a opção… Ou seja, o que nós estamos fazendo ao sair da zona de conforto é ir contra a natureza do nosso cérebro! Isso pode ser bem difícil e demandar muito esforço!

É possível, mas é preciso CONSISTÊNCIA. Para mudar a nossa vida, precisamos mudar nossos pensamentos, hábitos, formas de agir, sentimentos e estados de ser. Se a gente parar com tudo e voltar aos velhos hábitos e maneiras, todo o trabalho desanda e é preciso começar tudo de novo para recuperar a nova rota formada. Mas quanto mais antiga, mais sulcada… ou seja, as rotas velhas nos puxam em direção a elas. Cada dia é realmente uma briga de foice com o nosso cérebro!

O que eu acho que me diferencia (e pode diferenciar você!) é que todos os dias volto a fazer a mesma opção consciente perante a vida: a de não me vitimizar pelos acontecimentos e me responsabilizar pela minha história, pelo meu estado, pela minha energia!

 

 

Por Alana Trauczynski em Entre Todas as Coisas