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Arquivos do Autor: Kadu Rachid

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Quem gosta, dá um jeito | Do Amor #14

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De quando a galera começa a encontrar seus jeitos de manter o relacionamento em bom estado.

Ele leu um texto na Internet falando sobre o amor verdadeiro, aquele que não sucumbe perante as mazelas do dia a dia e encontra brechas para a retumbante vitória da relação amorosa. Tipo a jornada do herói, só que com o sentimento das pessoas.

Botou na cabeça que seria esse esforço hercúleo que sedimentaria de vez seu bem-querer com a namorada. Estavam há alguns meses com a coisa toda meio cabisbaixa, sem aquele brilho nos olhos dela, sabe, escapava no tom de voz uma falta de propósito, os dedos se apertando mais contra a tela do celular do que em volta do pau dele. Situações horríveis de ela rir de algo da televisão e, ao olhar pra ele, a gargalhada ser cortada pela sisudez na cara. Marcava amigos em eventos no Facebook e deixava ele de fora, inclusive comparecendo nas festas, solenidades e festas sem levá-lo junto.

 

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Mas, ora bolas, quem gosta dá seus jeitos! Deus há de estar ao lado dos amantes de verdade, o destino caminha com quem ama. “Vai ver ela quer ser reconquistada”, ele repetia em voz baixa enquanto arquitetava suas tentativas afetuosas e infalíveis para merecer de novo o amor dela. Sua amada. Quem gosta faz por onde, claro.

 

Bolou um plano sinistro. Mandou mensagens diárias querendo saber dela, das coisas dela. “Não importa como foi meu dia, me fala de você”. Reservava os melhores horários da sua semana para dedicá-los à ela, deixar em aberto esses minutos para satisfazê-la. “Onde você quer ir? Quer comer o quê?”. Deixava afirmativas de saudades nas redes sociais, o café na cama, de surpresa agradável tornou-se obrigação de final de semana. Botava a menina no sofá e fazia questão que ela desabafasse o stress no trabalho, os bodes da vida, não porque queria se colocar disponível, mas por qualquer mandamento que achava que devia ser feito. “Me conta o que te aflige, amor meu”. Ela arrumou a postura, costas eretas, mãos entre os joelhos. “Acabou o tesão, gato”. As palavras saíam da boca dela e caíam direto no chão, pontiagudas. Fincadas entre seus pés.

Era o perigo, a barriga da baleia, outro dos tantos obstáculos que ele haveria de passar mais ela. Quem gosta, mas gosta mesmo, o que fariam esses? Aqueles que tanto se doam para o relacionamento deveriam, no mínimo, receber de volta, não? A dedicação traria o prêmio, a entrega renderia a redenção. “Mas eu te dou de um tudo, mulher!”. Foi o máximo que conseguiu condensar.

 

 

 

Por Jader Pires em Papo de Homem

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Cansado de ouvir sobre machismo e racismo? Imagine quem vive isso

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Não querer discutir temas tão importantes é sintomático de uma sociedade imatura para o debate sério.

Quem é feminista ou milita na luta antirracista ou no movimento LGBT, com certeza já ouviu de alguém a frase: “Ah, mas vocês só falam disso” ̵ seja para expressar cansaço ou destilar ódio.

Essas pessoas, obviamente, ignoram que machismo e racismo são elementos estruturantes dessa sociedade, logo nenhum espaço estará isento dessas opressões. Basta vermos as desigualdades salariais entre homens e mulheres ̵ se falarmos de mulheres negras, a distância é maior ainda ̵ ou o número de jovens negros assassinados pelo Estado.

Para nós, falar desses temas é questão de sobrevivência, é denunciar a dura e desigual realidade. Pedir para pararmos de falar disso, seguindo a síndrome Morgan Freeman de ser, é querer manter as coisas como estão. Freeman, em uma entrevista, disse que o dia em que pararmos de falar de racismo, ele deixará de existir, como se racismo fosse uma entidade.

Fazendo uma analogia simplista, e um “argumento” simplista como esse requer uma analogia assim, se uma pessoa está com câncer e deixa de falar nisso e procurar tratamento, a doença simplesmente vai desaparecer? Não querer discutir temas tão importantes é sintomático de uma sociedade imatura para o debate sério. Há uma frase que circula nas redes sociais que explica bem: “Se você está cansado de ouvir falar sobre racismo, imagine quem vive isso todos os dias”.

Fora isso, há os intelectuais e especialistas que adoram dizer serem pessoas que falam de tudo, arvoram-se por falar de tudo. Esses também se referem a nós como pessoas que “só sabem falar disso”. Nesses casos, eu julgo ser pior, porque essas pessoas têm acesso a um debate mais crítico, mas preferem se esconder por de trás de seus privilégios.

Criam categorias como literatura feminina, assuntos para mulheres. A literatura produzida por eles é tida como universal e a feita por mulheres, “literatura feminina”. Alguém já ouviu alguém falar em literatura masculina? Criam sub categorias para hierarquizar arte e conhecimento. Julgam que falam do universal enquanto nós só falamos do específico, do “nosso mundo”, quando é justamente o contrário.

Ao falarmos de nós, estamos denunciando o quanto essa categoria universal é falsa, pois tem como base o homem, o branco. Apontar isso, é justamente ampliar essa categoria de universalidade, fazê-la abranger um número maior de possibilidades de existência.

Se racismo e machismo são elementos fundantes dessa sociedade, as hierarquizações de humanidade serão reproduzidas em todos os espaços. Deste modo, a ciência já foi utilizada para legitimar racismo através dos estudos de evolução biológica do século 19 que introduziu o conceito de “racismo biológico”, assim como também para querer provar uma “inferioridade natural” da mulher.

Como disse Bourdieu: “A ciência neutra é uma ficção. Uma ficção interessada”. Há o interesse de quem possui os privilégios sociais de criar mecanismos de manutenção desses privilégios, seja pela ciência, pela arte ou pela educação. Lélia Gonzalez, intelectual e feminista negra aborda essa questão em suas obras.

Criticando a ciência moderna como padrão exclusivo para a produção do conhecimento, vê a hierarquização de saberes como produto da classificação racial da população, uma vez que o modelo valorizado e universal é branco.

Nada é isento de ideologia. Como acadêmica e militante, ouço por parte de alguns acadêmicos que sou ideológica por estudar feminismo, como se eles também não tivessem seguindo uma ideologia, inclusive a de decidir quais temas são legítimos ou não e a de nos manter fora desses espaços. Nosso “stand point”, ponto de partida, como define Patricia Hill Collins, ou o nosso “só falar disso” nos permite refutar esse modelo e pensar outros mais plurais e democráticos. Não é possível falar de política, sociedade, arte, sem falar de racismo e sexismo.

Falar de questões que foram historicamente tidas como inferiores, falar de mulher, população negra, LGBT é romper com a ilusão de universalidade que exclui. A concepção de universal de quem está no poder é um dado ilusório. Não nos enganemos quando eles dizem que falam de temas universais e nós não. Eles estão tão somente falando de si próprios.

 

 

Por Djamila Ribeiro em Carta Capital