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As montanhas

O padre daquela pacata cidade montanhosa tinha em seu Corpo um resquício do não confesso. Palavras ocultas, cortadas entre o belo e o violento, corriam em suas veias dilatadas. O divino e o sublime eram a intenção de cada missa. No entanto, o padre não conseguia manter uma só estrutura, outros desejos lhe afanavam o espírito.

– Por que eu vivo atormentado e padeço clausulado no centro de cuidado dos espíritos? Se rogo pela salvação das almas perdidas, por que sou assim desuniforme?
Na cidade rochosa, o cenário era assim comum de pintura campestre. Cores ajeitadas à mão, cada qual em seu perfeito lugar, moviam alinhados ao passar do vento.
A menina que brincava todos os dias na porta da igreja olhava, desconfiada, os movimentos de passos sutis na cúpula sagrada. Ela apenas sentia desconfiança! Sua intuição de espírito limpo farejava as estranhezas e a guiava para seguir em lado oposto.
O padre tomava entorpecentes alcoólicos escondido na sacristia. O fato murmurava de boca em boca, em curtos espaços era turbinado pela curiosidade e perversidade de cada habitante. A missa sempre mais repleta! Os olhares dos fieis buscavam ver o cochicho para o dia seguinte.
E a missa seguia o ritmo e o clima costumeiros da divindade episcopal. O pão, o vinho, a hóstia, o perdão, a culpa, o peso… Os ingredientes do amor entregues ao Deus Pai Todo Poderoso!
Em um estado paralelo de compreensão, o padre desmerecia seu local de trabalho. Sentia a instituição alimentada, no passado e no presente, de miserável conduta proibitiva.
– Regem um bando de dependentes com regras que dão sentido de vida. Afinal, guiar a vida por si só exige eliminar o corrimão nas escadas e sentir as mãos livres agarradas aos desejos. São incapazes! Medrosos!
No outro dia, regressariam à missa de domingo, os fieis e o padre santo. No momento das rezas, o alívio aos espíritos trancados em suas fraquezas.
– O pensamento em Deus é a fuga desesperada e o encontro do abrigo fácil, amor disfarçado de mentiras. (Dizia o padre ao deixar o trabalho em passos bêbados).
Aquela menina brincaria outras tardes e manhãs em frente à igreja, em terra livre e espaçosa. Anos mais tarde, cumprimentaria o padre, com a mesma sábia desconfiança. O padre seguia afundado em copos!
Era essa a cidade incrustada entre altas e belas montanhas. De habitantes que nunca ousaram escalar e ultrapassar o nível do chão. Seguiam fieis o caminho reto da missa! E a aquela menina começou a olhar para cima das montanhas… Ela queria ultrapassar os limites!

Fonte:Mundoela

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