Por dentro de um colégio interno no exterior

mai 09, 2011 No Comments by dominiojovem

Quando falamos em colégio interno imaginamos logo algo parecido com uma prisão para jovens indisciplinados que são mandados pelos pais como fomra de castigo. Mas quem opta – sim, eles querem ir pra lá! – pelas chamadas Boarding Schools não pode ter problemas com disciplina. O processo de admissão exige boa conduta, notas altas e cartas de recomendação de professores do ensino anterior.
É do caráter severo e restritivo das regras impostas aos alunos que vem essa impressão, que não está de todo errada. A brasileira Aline Wada, 15 anos, estuda desde setembro na Choate Rosemary Hall, localizada em Connecticut, nos Estados Unidos. Lá, os celulares só podem ficar ligados em horários determinados: terças e sextas das 15h às 19h30; nos outros dias da semana, das 17h30 às 19h30. Apenas nos finais de semana os aparelhos estão liberados o dia inteiro. Facebook, twitter e até email devem obedecer aos mesmos horários.
A rotina é puxada. As aulas começam às 7h45 e vão até 15h10, com uma pausa para o almoço. “Quando chegava atrasada apenas três minutos, tinha que fazer dez flexões de braço ou levar o lixo para fora”, relata Aline.
Depois desse horário, os alunos podem escolher entre ioga, vôlei, líder de torcida, teatro e outros cursos oferecidos. O estudante pode decidir qual quer fazer, mas a participação é obrigatória.
O jantar é servido das 18h às 19h. A partir disso, até as 21h, é a chamada hora de estudo. E não dá nem para pensar em driblar o horário, porque a marcação é cerrada: fiscais circulam o tempo todo nos corredores checando a movimentação.
E, finalmente, o único tempo livre do dia, das 21h às 22h. Depois disso, todo mundo pra cama que é hora de dormir. No sábado, é permitido ficar acordado até a meia-noite.
Apesar de a escola ser mista, meninos e meninas vivem em prédios afastados. Assim como na escola Montverde Academy em que Matheus Saroli, 19 anos, estudou. Lá, apesar de estudarem juntos, partir das 19h, meninas e meninos iam cada um para seu próprio prédio, separados.
Além de cumprirem essa agenda apertada, ainda há a arrumação do quarto e os cuidados com seus pertences. “Todos tinham alguma função na escola, elas eram divididas por grupos. Os critérios de grupo dependiam das notas e desempenho atlético, ou seja, quanto menor suas notas e desempenho atlético, mais funções a pessoa tinha, como lavar pratos, lavar banheiro”, relembra Marcelo Passos Bezerra de Menezes, 25 anos, que estudou na Trinity Pawling School, também nos EUA.
residential“Passávamos por vistoria dos quartos, então tudo tinha que estar bem arrumado. Tudo era nossa responsabilidade, lavar roupa, passar, e etc”, relata Matheus.
Saiu da linha?
Os colégios internos prezam pela honestidade. Algo como colar em provas, por exemplo, está fora de cogitação. “Pode levar até a expulsão”, conta Aline.
Se alguém resolve burlar as regras, como chegar atrasado, mascar chiclete durante a aula ou usar o celular em horários proibidos, ele é punido com algumas horas de trabalho dentro da instituição, como lavar a louça ou ganhar horas extras de estudo obrigatório.
“Conversa em sala de aula é considerado desrespeito ao professor e, logo, inexistente”, conta ela. A proporção de estudantes para professores é 6:1, as classes são bem pequenas e, por isso, a cobrança e a pressão são maiores.
Diversão
Mas nem só de muito estudo e de uma rotina pesada são feitos os cotidianos nessas escolas. Aos finais de semana, a programação inclui passeios no shopping, idas ao cinema, acampamentos, parques de diversão, competições esportivas ou até viagens. Tudo organizado pela escola, é claro!
As regras mudam de acordo com cada instituição. Na Choate, por exemplo, os alunos podem visitar Nova York nos finais de semana e, se os pais autorizarem, dormir na casa de amigos que morem por perto. Festas só são permitidas desde que realizadas pela diretoria.
No colégio Trinity Pawling School, por exemplo, onde o brasileiro Marcelo Passos Bezerra de Menezes estudou, as festas eram as únicas oportunidades de se encontrar com garotas. “No Brasil não temos esse costume de ter colégios separados (meninos e meninas), mas a diretoria sempre organizava festas com outras escolas, na maioria das vezes só de meninas, e no final rendia uma boa mistura”, diz. Nessas ocasiões, todo mundo aproveita para tirar uma lasquinha. “Nas festas, não era proibido ficar. E se quisesse namorar alguém de outra escola ou fora do perímetro da sua escola, não teria problema nenhum”, relata o ex-estudante Marcelo.
A grande expectativa é para os bailes de fim de ano, quando elas usam um vestido longo, e eles, terno e gravata. “Como se fosse uma cena de Harry Potter”, compara Aline.
Futuro promissor
Mas o que leva jovens a saírem do Brasil, ficarem longe de suas famílias e amigos, sob uma rotina pesada e regras tão diferentes do País onde vivemos? A resposta é unânime: a busca por um futuro promissor.

Matheus no campus do colégioMatheus é prova de que um colégio interno pode levar a grandes universidades. Depois de estudar na Montverde Academy, hoje ele é bolsista na Universidade de Mississippi e cursa Internacional Business (curso semelhante à Relações Internacionais). Marcelo trabalha em um banco brasileiro e tem um bom cargo (é analista de recursos) e afirma que toda sua carreira foi construída em cima de seus aprendizados na boarding school.
Aline estudante se inscreveu por conta própria no curso e a escolha foi pensada estrategicamente: a escola está próxima de New Haven, cidade que abriga o campus da Universidade de Yale, uma das mais importantes dos EUA. “Estudar em uma boarding school abre as portas para poder escolher qualquer faculdade que eu quiser. Os professores são excelentes e, fora o curso em si, aprendemos a nos virar por conta própria”, conta.
Admissão
A Montverde atende 772 alunos, sendo 15 brasileiros. Até 20% do total de alunos contam com uma ajuda financeira. “Temos um orçamento anual de mais ou menos US$ 2,1 milhões para apoiar aqueles que não tem condições de pagar pelos estudos”, conta a diretora. Na Choat School, 33% dos alunos contam com essa ajuda, mas as vagas para estudantes internacionais são pouquíssimas.
O processo de admissão é intenso e criterioso. Primeiro, os alunos entregam a documentação necessária e depois de passar por uma entrevista, são avaliados. Um ponto muito importante é a vontade do aluno, ou seja, se os pais estiverem obrigando os filhos a cursarem, já bloqueiam o processo na hora. “Queremos jovens com vontades próprias, que estejam dispostos a encarar uma escola puxada. Se eles não quiserem de verdade, acabam não rendendo”, explica Robin Revis-Pyke, do setor de admissão da Montverde School.
Além dos documentos básicos, como passaporte e histórico escolar, os estudantes interessados, devem entregar uma série de cartas de recomendação dos professores do Brasil.
Os jovens podem encontrar ajuda e aconselhamento na The Association of Boarding Schools, mas também podem se informar sobre o processo de admissão nas próprias escolas.
Mas cursar uma escola dessas não é nada barato. Os valores anuais podem variar de US$ 17 mil a US$ 67 mil, fora as despesas com uniformes e outras questões pessoais dos alunos.

Comportamento, Destaque, Galera Investe

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